“Dona, quem cursa faculdade tem que estudar muito?”, foi esta a pergunta proferida por um estudante de ensino médio de escola pública. Além do valor da mensalidade, é essa a preocupação de alunos do colegial que, oposto a estudantes de escolas privadas, não são pressionados a conquistar uma vaga em universidades públicas.
![]() |
| Foto: Vivian Limongi |
Eram 20h45 de uma quinta-feira quando eu estava, em uma escola estadual, diante de 30 alunos do 2° ano do Ensino Médio. Para eles, a curiosidade pairava no ar. Havia alguém desconhecido com um giz na mão e em frente à lousa. Para mim, pairava a preocupação. Eu conseguiria fluir, durante os 45 minutos de aula, apenas crescimento intelectual? Eu seria capaz de demonstrar credibilidade e silenciar o alvoroço de todos aqueles jovens? A responsabilidade de professor pesou no coração repórter.
A partir dali, eu teria de ser suficiente para conquistar a atenção de todos aqueles adolescentes que beiravam os 17 anos. Eles não mostravam cansaço pelo dia de trabalho enquanto se extasiavam em assoviar ou perguntar uns aos outros quem realmente era aquela à frente deles. De qualquer forma, eu teria de exaltar minha voz e fazê-la preencher mais do que todas as 30 vozes, uníssonas.
“Boa noite pessoal” - foi a forma que escolhi para acalmá-los. Caso não fosse suficiente, tentaria bater na mesa com um livro, ou espalmar a lousa com força, ou ainda, quem sabe, fechar a porta da sala e encará-los com a expressão fechada, já que em minha lembrança adolescente, havia professores que agiam exatamente dessa forma. No entanto, não houve necessidade. Todos se sentaram e declararam com os olhos que eu havia me tornado o único foco. Anunciei, em seguida, o que trabalharíamos naquela noite: A Ideologia da TV.
Seriam todos os minutos de aula com duas ferramentas: voz e lousa. A escola possuía 27 salas e três datas-show. A coordenadora ofereceu um destes para minha exposição. Porém, deixou-me claro que, com equipamentos multimídias, eu nunca conheceria a realidade de um professor de escola pública. “Cada dia que entramos na sala de aula, é uma luta”, disse.
![]() |
| Foto: Vivian Limongi |
A partir de dois autores, eu informei àqueles jovens quais eram, realmente, as engrenagens que movimentavam a televisão - o objeto que fazia parte do cotidiano de cada um deles. Busquei palavras simples, exclui as técnicas. Ao falar sobre mártir, me questionaram o sentido do vocábulo. Entendi que deveria simplificar um pouco mais. Foi quando decidi tirar dois livros de minha bolsa: um de Arbex Junior e outro, de Eugênio Bucci, ambos tão conhecidos no universo jornalístico. Incentivei-os, com esse gesto, à leitura. Esclareci que o que eu os falava, descobri lendo.
“Dona, quem faz faculdade tem que ler bastante?”, perguntou um deles. Diante de minha resposta afirmativa, a expressão facial do jovem se alterou e ele se pôs a deitar-se na carteira. “Sabe que horas eu acordei hoje? 5h30, eu estou cansado”, continuou ele.
“Os estudos podem mudar essa realidade”, eu o rebati.
O sinal anunciou o término de minha aula e agradou a muitos, principalmente àqueles que há 15 minutos se lamentavam por estar na sala.
Agradeci-os pelo silêncio e pela atenção. O mesmo jovem que a pouco me questionara sobre leitura, confessou: “Se vier na última aula, verá a bagunça. Dona, você teve sorte!”.
Quando coloquei os pés para fora da sala, notei que me esforçava para conseguir falar. Estava rouca sem nem ter precisado gritar para chamar-lhes ou acalmá-los. Se, realmente, essa fosse a minha profissão, cerca de doze classes esperariam minhas aulas diariamente. E eu teria que usar minha voz para todas elas.
No caminho para a sala da coordenação, eu ouvi estudantes dizerem que preferiam ir embora a ficar ali. A questão é que o professor havia esclarecido que não ministraria nada naquela noite.
Vi outros pedindo para serem liberados. Diziam que não teriam aulas, mas uma palestra sobre o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). Observei, ainda, outros que pediram para conversar com a diretora, mas ela pediu para que esperassem.
“Temos todo o tempo do mundo para esperar”, disseram os estudantes.
Cheguei até a coordenadora, e antes de nos despedirmos, ela esclareceu que, independente do curso, as portas estavam abertas para todos os estudantes universitários que desejassem dar aulas. O motivo é que o número de profissionais, formados em licenciatura, não atende mais a demanda de alunos.
* Reportagem publicada na edição 22-B do impresso Na Prática da Unimep


Nenhum comentário:
Postar um comentário