sábado, 17 de outubro de 2009

A vida numa cidade do interior - Saltinho

“Povo altivo de nobre passado, és, Saltinho, uma rica promessa, uma vida que em sonho começa; belo sonho afinal realizado”; é assim, repleto de realizações que se inicia o primeiro verso do hino de Saltinho, uma pequena cidade a cento e oitenta quilômetros da capital Paulista. Apenas seis mil e quinhentos cidadãos escolheram habitar no município. Os mais velhos adoram-na por sua tranquilidade, porém os jovens reclamam a falta de lazer.
A história da cidade começa ao redor de um córrego que, logo após sua cabeceira, apresenta uma pequena queda de água. Foi exatamente esse detalhe da natureza que originou o nome Saltinho. No século XVIII, o Major Fernandes, herdeiro da família Ferraz de Arruda Pinto, recebeu doações de terras do Governo da Província e contratou serviços que foram pagos com lotes de terra. Dessa forma, diversas famílias acreditaram em “uma vida que em sonho começa” e originou a Vila de Saltinho. Quase um século depois, imigrantes italianos decidiram trabalhar nas lavouras cafeeiras de Piracicaba e optaram por comprar suas terras na vila. Com a união de várias promessas e sonhos, culturas diversas e muita esperança, a pequena vila cresceu e ganhou destaque. Entre tantas idas e vindas, finalmente em 19 de maio de 1991, a Vila de Saltinho foi nomeada município.
Mas, em uma cidade tão pequenina, de cento e um mil quilômetros quadrados, com um simples centro e nem mesmo um prédio finalizado, há tradição forte? Sim! “Os mais idosos tentam manter as tradições, especialmente aqueles religiosos, mas os jovens em geral não se preocupam em mantê-las, como saber as origens da terra etc”, conta Raquel Cartoce, 18 anos. Acompanham a moda, não só nas vestimentas, igualmente no namoro, pois os jovens também cancelaram a rigidez da tradição, enquadraram-se nas novas regras modernas: têm namoro liberal.
Em um lugar sem agitação como Saltinho, é muito comum encontrar os mais velhos reunidos, sentados despojadamente nos bancos da praça ou nas calçadas para comentarem sobre o último jogo de futebol com as cartas de baralho à mão, ou até mesmo reparando as mulheres que desfilam nas ruas. Para completar o perfil típico de pequena cidade do interior, lá existem as famosas “comadres”- personagens que o tempo não conseguiu excluir – que conhecem a vida de todos: quem está enfermo, desempregado, ganhou um novo neto, mudara de casa... A população é minúscula e como se diz, “o que se faz aqui, sabe lá”. Quando não, estão em igrejas e até mesmo em bares que costumam apresentar pequenas duplas sertanejas ou de cururu, símbolos da região rural; a antiga música urbana (valsa, samba) não sobreviveu nos pentagramas dos cantores que visitam Saltinho e o único boteco em que havia bocha, fechou.
Na falta de clubes esportivos, culturais e dançantes, periodicamente as associações organizam festas, como jantares dançantes, para reunir a comunidade. Já clube de campo, existe, mas não é popular. Sem boates, cinemas e shoppings, o único lugar para que os jovens se divirtam e tenham assuntos totalmente opostos ao dos mais velhos, é em um único bar, o “Villarejo”, este que já conheceu muitos proprietários e sempre acaba ganhando um novo nome. Essa ausência de lazer incentiva-os a procurarem entretenimento em outras cidades, como em Piracicaba.
É por meio de um jornal semanário e uma rádio comunitária que a população fica informada, mas Cartoce afirma que “a mais eficiente forma de comunicação da cidade é através da fofoca”.
A cidade destaca sua religiosidade na “Gruta Nossa Senhora Aparecida”, construída em 1950, onde romeiros em procissão encontram-se na Semana Santa. Também na “Igreja Sagrado Coração de Jesus”, em estilo Barroco – a primeira igreja do município. “Desse templo que se ergue na praça, descem bênçãos de luz divinal, como um rio de crença e de graça, Saltinhense, à vitória final!”; e é assim, repleto de religiosidade que termina o último verso do hino da pequena cidade Saltinho - um aconchego feliz para alguns e infeliz para outros.




'“Ocupe esse espaço. Apresente sua arte”

Um palco em formato de semicírculo e contornado por plantas, de piso marrom claro e minúsculos azulejos verdes, está à espera de vidas em meio a Universidade Metodista de Piracicaba. Fixado em um espaço aberto sob os efeitos da ação da natureza, encontra-se vazio e silencioso em uma tarde ensolarada de sábado, a não ser pelo suave balançar das folhas de árvores que contornam sua arquibancada de nove fileiras de banco de concreto, sem encosto, no terreno em declive.
Na parede de tijolo à vista, uma faixa branca com dizeres em colorido implora cultura: “Ocupe esse espaço. Apresente sua arte”. Mas as duas escadas de dois degraus na lateral do palco não estão recebendo artistas ou novos talentos. Quem aparece no lugar é uma pomba cinzenta; apóia-se na estrutura de iluminação acima do palco, retorce o pescoço e parece observar os arredores. Um pouco antes de levantar voo e deixar uma pena escapar-lhe, surge um pardal saltitando na arquibancada. E os estudantes? Não aparecem, mas deixam péssimos rastros: uma bola de papel amassado sobre os bancos.