terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Jornalista Luiz: Uma história que se conta cantando
“Quando eu estava sentado na frente de casa e de repente comecei a ouvir aquela música eu pensei ‘o que é isso’? Aquilo entrou em minhas veias de uma forma que eu não consigo explicar”. A música era dos Beatles. O corpo invadido provocando êxtase de prazer foi o do jornalista Luiz Antônio de Souza, quando adolescente na cidadezinha de Porto Ferreira no interior de São Paulo.
O tempo passou, a idade chegou, os cabelos começaram a cair e mesmo assim, aos 60 anos, a música que lhe invadiu corpo na adolescência ainda trafega livremente pelas “vias arteriais”. Uma paixão que elimina solidão. “Gosto de ficar sozinho, aliás, eu não fico sozinho, eu fico com meu cds, discos, eles são a minha companhia algumas vezes”. E são tantos... Beatles, Pit Boys e Elomar Figueira Melo são os mais lembrados pelo jornalista que cresceu ouvindo música caipira.
Durante a conversa, Luiz se mostra disposto, ligado a tudo que acontece. Os braços ficam temporariamente cruzados. Os olhos relutam em olhar por muito tempo nos olhos dos quase trinta alunos que o entrevistavam. Não por medo. Por inquietação talvez.
Sentado-se à mesa, o senhor com estilo de “moleque”, dá indícios de que a idade que carrega é mera imposição do tempo. A vitalidade e a disposição não deixam nem por um minuto que se imagine a idade que tem. As roupas muito menos. Calça jeans, tênis All Star e camiseta preta. A única traquina a lhe revelar o tempo é a não muito bem vinda calvície que teima em acabar com os lisos cabelos que lhe caem aos ombros.
O violão encostado ao lado, a música por pouco tempo na conversa. Só enquanto fala de estudo e trabalho.
Saiu de Porto Ferreira aos 21 anos em busca de trabalho em São Paulo. Voltou. O trabalho que conseguira na cidade tomava muito tempo.
A paixão pela literatura fez com que se formasse aos 23 anos em Letras. Mas aos 28, o Jornalismo apareceu. Formou-se em 1983 nas Faculdades Integradas do grupo FMU.
Já formado em Jornalismo, o inquieto Luiz não queria viver dentro de um mundinho fechado. Queria mais. E para isso, voltou para São Paulo. Foi trabalhar no DCI como revisor de textos. O que durou pouco tempo. Já casado, a esposa recebeu um convite para trabalhar em Piracicaba. Os dois aceitaram a proposta e se mudaram para a cidade.
Hoje, Luiz trabalha na prefeitura de Piracicaba, é casado há 27 anos e tem três filhos.
Conta o que já aprendeu com o tempo que passou. Vê a idade chegando como “algo maluco” mas não tem medo. Já superou dificuldades e conta que em um momento de sua vida elas foram tantas que uma loucura rondou o pensamento. “Com trinta anos de idade, eu pensei até mesmo em tirar a minha vida”. Por sorte não tirou. Deu tempo dos cabelos brancos também começarem a tomar espaço dos poucos que vão ficando. O que não o assusta. “Essa semana eu fui ao cinema e paguei meia” conta de forma muito bem humorada.
Um homem que dá valor à amizade. Ainda tem costumes antigos como escrever cartas. Conta que ainda troca cartas com uma amiga. Compra presentes para um amigo que vê uma vez por ano, mas que quando se encontram parecem continuar a mesma conversa da última vez que se encontraram. Não acredita em Deus. Acredita na amizade. Finaliza dizendo que conta nos dedos os amigos que tem, mas que os que tem são amigos verdadeiros e defende que “ser amigo é: estando próximo ou não, levar a vida respeitando a pessoa, ouvir, ser ouvido e sentir saudade”.
Luiz então termina a história dele puxando da capa preta o violão e fazendo o que fez o tempo todo sem o instrumento: canta a história dele.
sábado, 17 de outubro de 2009
A vida numa cidade do interior - Saltinho
“Povo altivo de nobre passado, és, Saltinho, uma rica promessa, uma vida que em sonho começa; belo sonho afinal realizado”; é assim, repleto de realizações que se inicia o primeiro verso do hino de Saltinho, uma pequena cidade a cento e oitenta quilômetros da capital Paulista. Apenas seis mil e quinhentos cidadãos escolheram habitar no município. Os mais velhos adoram-na por sua tranquilidade, porém os jovens reclamam a falta de lazer.
A história da cidade começa ao redor de um córrego que, logo após sua cabeceira, apresenta uma pequena queda de água. Foi exatamente esse detalhe da natureza que originou o nome Saltinho. No século XVIII, o Major Fernandes, herdeiro da família Ferraz de Arruda Pinto, recebeu doações de terras do Governo da Província e contratou serviços que foram pagos com lotes de terra. Dessa forma, diversas famílias acreditaram em “uma vida que em sonho começa” e originou a Vila de Saltinho. Quase um século depois, imigrantes italianos decidiram trabalhar nas lavouras cafeeiras de Piracicaba e optaram por comprar suas terras na vila. Com a união de várias promessas e sonhos, culturas diversas e muita esperança, a pequena vila cresceu e ganhou destaque. Entre tantas idas e vindas, finalmente em 19 de maio de 1991, a Vila de Saltinho foi nomeada município.
Mas, em uma cidade tão pequenina, de cento e um mil quilômetros quadrados, com um simples centro e nem mesmo um prédio finalizado, há tradição forte? Sim! “Os mais idosos tentam manter as tradições, especialmente aqueles religiosos, mas os jovens em geral não se preocupam em mantê-las, como saber as origens da terra etc”, conta Raquel Cartoce, 18 anos. Acompanham a moda, não só nas vestimentas, igualmente no namoro, pois os jovens também cancelaram a rigidez da tradição, enquadraram-se nas novas regras modernas: têm namoro liberal.
Em um lugar sem agitação como Saltinho, é muito comum encontrar os mais velhos reunidos, sentados despojadamente nos bancos da praça ou nas calçadas para comentarem sobre o último jogo de futebol com as cartas de baralho à mão, ou até mesmo reparando as mulheres que desfilam nas ruas. Para completar o perfil típico de pequena cidade do interior, lá existem as famosas “comadres”- personagens que o tempo não conseguiu excluir – que conhecem a vida de todos: quem está enfermo, desempregado, ganhou um novo neto, mudara de casa... A população é minúscula e como se diz, “o que se faz aqui, sabe lá”. Quando não, estão em igrejas e até mesmo em bares que costumam apresentar pequenas duplas sertanejas ou de cururu, símbolos da região rural; a antiga música urbana (valsa, samba) não sobreviveu nos pentagramas dos cantores que visitam Saltinho e o único boteco em que havia bocha, fechou.
Na falta de clubes esportivos, culturais e dançantes, periodicamente as associações organizam festas, como jantares dançantes, para reunir a comunidade. Já clube de campo, existe, mas não é popular. Sem boates, cinemas e shoppings, o único lugar para que os jovens se divirtam e tenham assuntos totalmente opostos ao dos mais velhos, é em um único bar, o “Villarejo”, este que já conheceu muitos proprietários e sempre acaba ganhando um novo nome. Essa ausência de lazer incentiva-os a procurarem entretenimento em outras cidades, como em Piracicaba.
É por meio de um jornal semanário e uma rádio comunitária que a população fica informada, mas Cartoce afirma que “a mais eficiente forma de comunicação da cidade é através da fofoca”.
A cidade destaca sua religiosidade na “Gruta Nossa Senhora Aparecida”, construída em 1950, onde romeiros em procissão encontram-se na Semana Santa. Também na “Igreja Sagrado Coração de Jesus”, em estilo Barroco – a primeira igreja do município. “Desse templo que se ergue na praça, descem bênçãos de luz divinal, como um rio de crença e de graça, Saltinhense, à vitória final!”; e é assim, repleto de religiosidade que termina o último verso do hino da pequena cidade Saltinho - um aconchego feliz para alguns e infeliz para outros.
'“Ocupe esse espaço. Apresente sua arte”
Na parede de tijolo à vista, uma faixa branca com dizeres em colorido implora cultura: “Ocupe esse espaço. Apresente sua arte”. Mas as duas escadas de dois degraus na lateral do palco não estão recebendo artistas ou novos talentos. Quem aparece no lugar é uma pomba cinzenta; apóia-se na estrutura de iluminação acima do palco, retorce o pescoço e parece observar os arredores. Um pouco antes de levantar voo e deixar uma pena escapar-lhe, surge um pardal saltitando na arquibancada. E os estudantes? Não aparecem, mas deixam péssimos rastros: uma bola de papel amassado sobre os bancos.