Por Vieira Junior
“Quando eu estava sentado na frente de casa e de repente comecei a ouvir aquela música eu pensei ‘o que é isso’? Aquilo entrou em minhas veias de uma forma que eu não consigo explicar”. A música era dos Beatles. O corpo invadido provocando êxtase de prazer foi o do jornalista Luiz Antônio de Souza, quando adolescente na cidadezinha de Porto Ferreira no interior de São Paulo.
O tempo passou, a idade chegou, os cabelos começaram a cair e mesmo assim, aos 60 anos, a música que lhe invadiu corpo na adolescência ainda trafega livremente pelas “vias arteriais”. Uma paixão que elimina solidão. “Gosto de ficar sozinho, aliás, eu não fico sozinho, eu fico com meu cds, discos, eles são a minha companhia algumas vezes”. E são tantos... Beatles, Pit Boys e Elomar Figueira Melo são os mais lembrados pelo jornalista que cresceu ouvindo música caipira.
Durante a conversa, Luiz se mostra disposto, ligado a tudo que acontece. Os braços ficam temporariamente cruzados. Os olhos relutam em olhar por muito tempo nos olhos dos quase trinta alunos que o entrevistavam. Não por medo. Por inquietação talvez.
Sentado-se à mesa, o senhor com estilo de “moleque”, dá indícios de que a idade que carrega é mera imposição do tempo. A vitalidade e a disposição não deixam nem por um minuto que se imagine a idade que tem. As roupas muito menos. Calça jeans, tênis All Star e camiseta preta. A única traquina a lhe revelar o tempo é a não muito bem vinda calvície que teima em acabar com os lisos cabelos que lhe caem aos ombros.
O violão encostado ao lado, a música por pouco tempo na conversa. Só enquanto fala de estudo e trabalho.
Saiu de Porto Ferreira aos 21 anos em busca de trabalho em São Paulo. Voltou. O trabalho que conseguira na cidade tomava muito tempo.
A paixão pela literatura fez com que se formasse aos 23 anos em Letras. Mas aos 28, o Jornalismo apareceu. Formou-se em 1983 nas Faculdades Integradas do grupo FMU.
Já formado em Jornalismo, o inquieto Luiz não queria viver dentro de um mundinho fechado. Queria mais. E para isso, voltou para São Paulo. Foi trabalhar no DCI como revisor de textos. O que durou pouco tempo. Já casado, a esposa recebeu um convite para trabalhar em Piracicaba. Os dois aceitaram a proposta e se mudaram para a cidade.
Hoje, Luiz trabalha na prefeitura de Piracicaba, é casado há 27 anos e tem três filhos.
Conta o que já aprendeu com o tempo que passou. Vê a idade chegando como “algo maluco” mas não tem medo. Já superou dificuldades e conta que em um momento de sua vida elas foram tantas que uma loucura rondou o pensamento. “Com trinta anos de idade, eu pensei até mesmo em tirar a minha vida”. Por sorte não tirou. Deu tempo dos cabelos brancos também começarem a tomar espaço dos poucos que vão ficando. O que não o assusta. “Essa semana eu fui ao cinema e paguei meia” conta de forma muito bem humorada.
Um homem que dá valor à amizade. Ainda tem costumes antigos como escrever cartas. Conta que ainda troca cartas com uma amiga. Compra presentes para um amigo que vê uma vez por ano, mas que quando se encontram parecem continuar a mesma conversa da última vez que se encontraram. Não acredita em Deus. Acredita na amizade. Finaliza dizendo que conta nos dedos os amigos que tem, mas que os que tem são amigos verdadeiros e defende que “ser amigo é: estando próximo ou não, levar a vida respeitando a pessoa, ouvir, ser ouvido e sentir saudade”.
Luiz então termina a história dele puxando da capa preta o violão e fazendo o que fez o tempo todo sem o instrumento: canta a história dele.